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sábado, 9 de outubro de 2021

Ao Farol - Virginia Woolf


Virginia Woolf passava as férias de verão, até os treze anos, na casa de praia da família em St Ives, na Cornualha, numa baía de onde se avistava o farol da ilha de Godrevy. Esses verões à beira-mar ficaram para sempre na sua memória.

Sua amada mãe, Julia Stephen, renomada por sua beleza, morreu quando Virginia tinha treze anos. Ela teve aí o primeiro dos colapsos nervosos que a atormentariam pelo resto da vida.

Com o pai, Leslie Stephen, historiador e alpinista, Virginia mantinha uma relação ambígua. Ele era, nas suas próprias palavras, “espartano, ascético, puritano”. Mas também podia ser muito carinhoso para com os filhos. E foi pela leitura dos livros de sua biblioteca que Virginia, que nunca frequentou escola nem universidade, obteve toda a sua educação.

Ao Farol é a transposição artística da memória dos verões passados em St Ives e da relação com os pais. Mas um romance, se bem concebido, nunca é um relato autobiográfico. Tal como no sonho freudiano, a artista procede por condensações, deslocamentos, deformações.

O Sr. Ramsay não é Leslie Stephen. A Sra. Ramsay não é Julia Stephen. A pintora Lily Briscoe não é Virginia Woolf. E a Ilha de Skye, na Escócia, não é, obviamente, a baía de St Ives, na Inglaterra.

E uma obra literária, poesia ou ficção, não é feita dos atos e eventos banais que constituem o material da vida cotidiana. Mas de revelações, de visões, de epifanias. A artista é uma vidente. Ela vê o que não vemos. E o ato artístico supremo consiste em transformar visões em palavras, em frases, em verbo.

Em Ao Farol, as visões, os sons, as cores da infância de Virginia se transformam em imagens literárias, em sonoridades verbais, em coloridos estilísticos. Ela exerce aí, com virtuosidade invulgar, o privilégio supremo da verdadeira artista.

Com sorte, teremos, ao lê-lo, as nossas próprias visões, desfrutando, assim, ainda que modesta e brevemente, do precioso dom da vidência. Não se pode querer mais.

Sobre a autora
Adeline Virginia Woolf, nasceu em 25 de janeiro de 1882. Foi foi uma escritora, ensaísta e editora britânica. Estreou-se na literatura em 1915 com o romance The Voyage Out, que abriu o caminho para a sua carreira como escritora e uma série de obras notáveis. Woolf foi membro do Grupo de Bloomsbury e desempenhou um papel de significância dentro da sociedade literária londrina durante o período entre guerras.

Seus trabalhos mais famosos incluem os romances Mrs. Dalloway (1925), To the Lighthouse (1927), Orlando: A Biography (1928). No final dos anos 1920, tornou-se uma escritora de sucesso e foi reconhecida internacionalmente. Contudo seu trabalho no esquecimento na Segunda Guerra. Décadas depois estudos sobre Woolf ganharam novo fôlego.
Virginia teve várias crises depresivas ao longo de sua vida. Em 1941, não suportou, deixou um bilhete de despedida para seu marido e cometeu suicídio.

Woolf é considerada uma das mais importantes escritoras do modernismo clássico ao lado de Gertrude Stein.

Virginia Woolf, em seus devaneios consegui atinguir até hoje o âmago da alma do ser. 



sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

A Tese da Inexistência do suicidio.

“Como apostar na vida e amá-la, se quem me gerou suicidou-se?”
Então  chegou o momento para Marco Polo ajudar Anna mais profundamente. O seu conceito de suicídio confrontava com o pensamento corrente na psiquiatria e na psicologia.
    Então levantou-se suavemente o rosto da moça, penetrou em seus olhos e falou solenemente:
“Anna, não existe suicídio!...”
Perplexa, ela imediatamente argumentou:
“O que você esta me dizendo? Durante anos, procurei entender por que minha mãe morreu e por que as pessoas desistem de viver. E agora você me diz que não existe suicídio! Não brinque com meus sentimentos.
“Estou falando sério. “As pessoas deprimidas têm fome e sede de viver” ele afirmou contundentemente.
     Então ela tocou num assunto que era um tabu:
“Não diga isso. Eu também já tentei me matar uma vez. Tomei cartelas de medicamentos. Oque eu fiz? Não quis me matar?” falou abalada.
“Não você quis matar a sua dor, e não sua vida. Do mesmo modo, sua mãe não quis morrer. Na realidade, seu desejo era destruir o humor depressivo, a angústia que a sufocava.”
“Nenhum psiquiatra jamais me disse isso!” Anna exclamou.
“O conceito de suicídio precisa ser corrigido na psiquiatria e na sociedade em geral. A consciência do fim da existência e sempre uma manifestação da própria existência. Toda ideia de morte é uma homenagem a vida, pois só a vida pensa. A ideia de morte não é a atitude onipotente do ser humano traçando seu destino, mas uma atitude desesperada de tentar destruir o drama emocional que ele não conseguiu superar. Assim, não existe a ideia pura de suicídio. Todo vez que uma pessoa pensa em se matar, ela não leva em conta a consciência do nada existencial. Seu pensamento é uma reação, não para eliminar sua vida, mas para decepar sua dor. A tentativa de suicídio, portanto, revela não o desejo de morrer mas uma fome desesperada de viver.”
    Anna não entendeu plenamente a dimensão psicológica das ideias de Marco Polo, mas o pouco que entendeu foi o suficiente para chocá-la, aliviá-la e faze-la dar um mergulho interior. Novamente sua inteligência se manifestou:
“Quando pensei em tirar minha vida, um sentimento estrangulava meu ser. Sentia-me num cubículo sem ar. Uma ideia tentadora passava em minha mente, mostrando que era muito fácil acabar com tudo aquilo. Mas, na realidade, eu lutava dentro de mim para quebrar as algemas dessa prisão. Queria, ser livre, respirar, amar, não queria morrer.”
     Após esse conclusão, Anna mergulhou mais profunda mente nos recônditos do seu ser e abriu as comportas do seu remoto passado. Como se saísse de um ambiente escuro e entrasse numa sala iluminada, recordou imagens que havia anos escondidas em suas ruínas.
    Lembrou de momentos agradáveis em que sua mãe escondia-se atrás dos sofás e das cortinas, brincando de esconde-esconde. Recordou quando sua mãe tocava piano e ela ficava aos seus pés encantada e etc...

Fragmento do livro - O Futuro da Humanidade