segunda-feira, 27 de julho de 2026

Flip 2026: O que rolou na 24ª edição da Festa Literária Internacional de Paraty

A Flip voltou a Paraty, e a edição de 2026 não decepcionou. A 24ª Festa Literária Internacional de Paraty aconteceu entre os dias 22 e 26 de julho, reunindo autores nacionais e internacionais na Tenda dos Autores, montada na Praça da Matriz, com transmissão ao vivo pelo site, YouTube e canal Arte1.

A homenageada: Orides Fontela

Quem dá o tom da edição deste ano é a poeta paulista Orides Fontela, nascida em São João da Boa Vista, morta em 1998 após uma vida marcada por precariedade financeira e pouco reconhecimento em vida. Autora de livros como Transposição, Helianto e Alba (este último premiado com o Jabuti de Poesia), Orides construiu uma obra rara: rigorosa na linguagem, atravessada pelo diálogo entre poesia e filosofia. As 21 mesas da Programação Principal levam trechos de seus versos como título — uma homenagem que se espalha por toda a curadoria de Rita Palmeira.

A abertura, na noite de quarta-feira (22), reuniu a poeta e ensaísta Marília Garcia e o crítico Augusto Massi numa mesa batizada de "Entra Furtivamente a Luz". Massi fez uma espécie de aula-show sobre a trajetória de Orides, enquanto Garcia apresentou uma performance-ensaio que misturou memória pessoal e crítica literária. A plateia dentro da Tenda saiu encantada — já quem acompanhava pelo telão na Praça enfrentou problemas técnicos, com a transmissão caindo duas vezes.

Segundo dia: guerra, teatro e um apagão

Na quinta-feira (23), a programação principal trouxe a mesa dos escritores ucranianos Andrei Kurkov e Maria Reva, que discutiram a literatura feita em meio ao conflito na Ucrânia, além do encontro entre Andréa del Fuego e Paulliny Tort sobre imaginação e criação literária. O dia também celebrou o centenário do contista Dalton Trevisan com um espetáculo teatral inédito estrelado por Denise Stoklos e dirigido por Alessandra Maestrini. À noite, um apagão atingiu parte de Paraty durante a festa — o primeiro dos dois que interromperam o evento ao longo da semana.

Terceiro dia: memória e resistência

A sexta-feira (24) seguiu reafirmando a diversidade de vozes da edição, entre auditórios lotados e debates sobre literatura, saúde, democracia e direitos humanos. Um dos momentos mais aguardados foi a mesa entre o médico e escritor Drauzio Varella e a escritora alemã Carmen Stephan, que aproximou as obras O Médico Doente e Malária, ambas atravessadas pela proximidade com a morte. A ministra do STF Cármen Lúcia também participou, levando ao debate reflexões sobre democracia, Constituição e cidadania em uma das mesas mais concorridas do dia. O encerramento da programação principal ficou por conta da norte-americana Katie Kitamura e da espanhola Marta Pérez-Carbonell, que discutiram os limites entre realidade e ficção. Nem a segunda queda de energia consecutiva esfriou o público, que seguiu ocupando ruas, livrarias e espaços culturais até tarde.

Quarto dia: Zadie Smith e o fenômeno Angela Davis

No sábado (25), Dia do Escritor, Paraty recebeu um dos maiores públicos da edição. Na Tenda dos Autores, Zadie Smith conversou sobre sua trajetória e os temas recorrentes de sua obra, como colonialismo, imigração e racismo. Mas a verdadeira estrela do dia, mesmo fora da programação oficial, foi Angela Davis: sua conversa, remanejada da Casa Sesc para uma tenda maior no Sesc Caborê por causa da procura, reuniu 700 pessoas que esgotaram os ingressos em minutos e ainda formaram fila na Avenida Octávio Gama. O nigeriano Wole Soyinka, prêmio Nobel de Literatura, era esperado na mesa, mas cancelou por razões pessoais — Angela lamentou sua ausência e desejou que ele "saia do hospital logo". A filósofa teceu críticas a Elon Musk e a Jair Bolsonaro durante a conversa e, ao final, permaneceu no palco para autografar livros por longos minutos, num momento que ficou marcado como um dos pontos altos da 24ª Flip.

Quinto dia: o encerramento

O domingo (26) foi o dia com maior fôlego na programação principal, com três mesas ao longo da tarde, às 10h, 12h e 15h30. A festa se encerrou oficialmente com a cantora Juçara Marçal, que subiu ao palco do Sesc Santa Rita às 16h, em meio a uma programação musical paralela que tomou o Centro Histórico com samba, coco, maracatu e tambor de crioula até a noite.

Nomes que chamam atenção

A programação deste ano tem peso internacional: Zadie Smith, Kamel Daoud, Eva Baltasar, Andrei Kurkov, Maria Reva, Hisham Matar, Andrea Bajani e Eduardo Halfon estão entre os destaques de fora do Brasil. Chamou atenção da imprensa o fato de que boa parte desses autores estrangeiros hoje vive fora de seus países de origem — caso de Kamel Daoud (radicado na França) e Halfon (em Berlim) —, algo que a organização associa tanto ao momento político atual quanto a um tema mais amplo da poesia: a instabilidade da palavra.

Do lado brasileiro, a lista inclui a ministra do STF Cármen Lúcia, o médico e escritor Drauzio Varella, o romancista Milton Hatoum e o crítico João Cezar de Castro Rocha. Fora da Programação Principal, a Flip também recebe pela primeira vez a escritora e ativista Angela Davis, convidada da Casa Sesc.

Além das mesas principais

Como sempre, a festa não se resume à Tenda dos Autores. Este ano a programação se expande com a Flipinha e a FlipZona (para crianças e jovens), além da Flip Educa, da Flip+ e da Praça Aberta. A grande novidade é a Casa Paraty, dedicada a valorizar a cultura local, somando-se às mais de 40 Casas espalhadas pelo centro histórico, cada uma com programação própria — de saraus a sessões de autógrafos de pequenas editoras.

A identidade visual da edição também merece nota: foi construída com a participação de 120 crianças de escolas públicas da região, ao lado da ilustradora Marcela da Terra, que usa pigmentos naturais das terras de Paraty.

Entre os influenciadores literários, o Bookster, Pedro Pacífico, também marcou presença na programação paralela: passou pela Casa Estante Virtual, onde parou para fotos e autógrafos com os leitores que o seguiam, livro Trinta segundos sem pensar no medo na mão.

Ingressos

No segundo lote, os ingressos para o Programa Principal saíram por R$ 140 (inteira) e R$ 70 (meia), mas a procura foi grande — as mesas de sábado esgotaram ainda durante a semana, restando disponíveis principalmente as de domingo.

A Flip 2026 fechou suas portas no domingo, deixando Paraty com a sensação de mais uma edição marcante — entre apagões, filas quilométricas e o toque na mão de Angela Davis, ficou claro que o clima especial da festa segue intacto.

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