domingo, 29 de janeiro de 2023

Kafka e a Boneca Viajante - Jordi Sierra I Frabra.


Um ano antes de sua morte, Franz Kafka viveu uma experiência singular. Passeando pelo parque de Steglitz, em Berlim.

Uma garotinha chora desesperadamente a perda de sua boneca. É consolada por um homem que, para acalmá-la, encarna a figura de um carteiro de bonecas. O carteiro é ninguém menos do que Franz Kafka! Ele redige cartas como se fossem escritas pela boneca Brígida, que viaja por todo o mundo, relatando suas aventuras à menina Elsi. A partir dessa história verídica, contada pela companheira de Kafka, Dora Dymant, o premiado escritor espanhol Jordi Sierra i Fabra recria os fatos numa obra encantadora, na qual imaginação e fábula conduzem o laço de amizade entre o escritor e a garotinha. O livro traz ainda, como pano de fundo, rumores da Primeira Guerra e uma aposta de esperança nas gerações futuras. O autor apresenta também, sutilmente, traços biográficos de um dos maiores escritores de nossos tempos. A ilustração de Pep Montserrat, com cores em tom ocre, dá ao mesmo tempo um tom obscuro e de fantasia, ressaltando o caráter de esperança que o livro traz.

domingo, 22 de janeiro de 2023

Tudo o que você precisa saber sobre A mandíbula de Caim.


Escrito em 1934 pelo compilador de palavras cruzadas do The Observer, ‘A mandíbula de Caim’ é um suspense policial diferente de tudo o que você já viu — ou leu. No livro, seis assassinatos acontecem, cada um cometido por um assassino diferente. O desenrolar desses crimes está perfeitamente descrito na obra, mas com um detalhe: todas as páginas foram impressas e encadernadas em ordem totalmente aleatória e a única maneira de descobrir o que aconteceu é colocando-as na sequência correta.

Com uma combinação original de jogos de palavras e pistas ocultas, o enigma de ‘A mandíbula de Caim’ permanece um segredo e, quase noventa anos após seu lançamento, apenas pouquíssimas pessoas conseguiram desvendá-lo.

É importante frisar que, para manter as ideias originais do autor, todos os cuidados foram tomados durante o processo de tradução e edição do livro, que contou com a participação de um especialista na obra e a colaboração entre editores e tradutores de diversos países. Além disso, diferentemente das edições estrangeiras, o obra tem páginas destacáveis, o que proporciona uma experiência de leitura totalmente distinta e permite que o leitor construa um quadro de investigação, o que facilita o trabalho daqueles que se lançam ao desafio.

Fenômeno das redes sociais.

Intrigante, original e muito instagramável, o livro é um fenômeno no TikTok. Empolgados pelo desafio de colocar as páginas em ordem e identificar as seis vítimas e seus respectivos assassinos, milhares de leitores de todos os cantos do mundo compartilham nas redes sociais suas experiências de leitura, possíveis pistas e, claro, seus quadros de investigação.

Preciso mesmo destacar as páginas?

As páginas são destacáveis para que o leitor tenha a opção de reordenar o livro. Além disso, destacar as páginas e montar um mural de investigação faz parte da experiência de leitura da obra — afinal, muito mais do que um suspense policial, o livro é um quebra-cabeça literário.

Mas, se você quer manter seu livro intacto, não se preocupe: também é possível tentar reorganizar a numeração sem tirar as páginas, apenas anotando pistas e possíveis soluções no próprio livro, na folha de respostas ou em qualquer outro lugar de sua preferência.

domingo, 15 de janeiro de 2023

Guerra Contra o Ocidente - Douglas Murray


Há uma guerra em curso que não está sendo travada com armamentos, mas tem potencial de destruir uma civilização Você já reparou que as grandes manifestações de ativistas contra o racismo, machismo e homofobia ocorrem basicamente no Ocidente, justamente nas nações onde esses grupos têm mais direitos respeitados? 

Da forma como tomam conta dos noticiários, muitas vezes com protestos violentos, passa-se a ideia de que o Ocidente é responsável pelo que há de pior no mundo, isto até nos lembrarmos da existência de campos de concentração e de punições medievais ocorrendo em outras nações, mas que são ignorados. Será que é porque ocorrem fora do eixo Ocidente e cristão? É uma pergunta que muitos se fazem... Todos os dias vemos a cultura ocidental, a que mais promove segurança e qualidade de vida para as pessoas, ser massacrada pelas ideias que mais produziram misérias, guerras e êxodos no mundo.

 Não se trata de obra do acaso, mas de um projeto ideológico bem arquitetado, ao qual o autor se dedicou a estudar nos últimos anos. Douglas Murray revela em detalhes como a cultura ocidental está sendo atacada em seus pilares, da linguagem aos princípios das sociedades, tradições, personagens históricos, entre muitos outros, por pessoas ou grupos que defendem bandeiras que representam os piores exemplos para o mundo. Um livro rico em informações e que deve servir de alerta. 

Nos últimos anos, ficou cada vez mais claro que há uma guerra em andamento contra o Ocidente. Ela não é como as guerras anteriores, em que os exércitos se chocavam e os vencedores eram declarados. Trata-se de uma guerra cultural, e está sendo travada impiedosamente contra todas as raízes da tradição ocidental e contra tudo de bom produzido por ela. As pessoas começaram a falar de “igualdade”, mas não pareciam se importar com direitos iguais. Elas falavam de “antirracismo”, mas soavam profundamente racistas. Elas falavam de “justiça”, mas pareciam querer dizer “vingança”.

domingo, 8 de janeiro de 2023

Quando Deus Era Mulher - Merlin Stone.


Este livro nos conta a história do antigo culto à Grande Deusa e como o rito às deidades femininas foi suprimido ao longo dos séculos.

Antes de publicar este livro, em 1976, Merlin Stone passou quase uma década pesquisando as deusas na Antiguidade, período em que a vida social, política, econômica e cultural de muitos povos girava em torno da mulher. E como a religião tende a espelhar a figura dominante na sociedade que a pratica, a deidade feminina foi representada diversas vezes por esculturas e pinturas encontradas até hoje em vários sítios arqueológicos.

Chamada por diferentes nomes, a Deusa contava com suas sacerdotisas que lideravam e guerreavam, eram poligâmicas e detinham o conhecimento sobre tratamentos medicinais naturais. No decorrer dos séculos, porém, novos grupos hegemônicos passaram a ver essas mulheres como prostitutas e bruxas, seus feitos foram reduzidos a lendas e a cultura da divindade feminina foi sufocada.

Quando Deus era mulher afirma que, apesar de a cultura matriarcal e matrilinear ter ruído, ela não só perdura como se impõe ao patriarcado e resiste a ele, mostrando-se mais atual do que nunca.

Resenha

Parafraseando a escritora equatoriana María Fernanda Ampuero em um de seus contos1, “ser mulher é engolir abismos”. Desde pequenas, mulheres são ensinadas a saborearem caladas as profundezas da insegurança quanto à natureza dos próprios corpos e da necessidade de serem boas em tudo, mas de não se destacarem muito mais do que os homens.

Enquanto se desdobram em várias para conseguirem concluir as dezenas de tarefas corriqueiras, ainda têm de lidar com as violências de gênero que uma sociedade misógina e patriarcal não só pratica como também influência outras pessoas a perpetuarem — mas nem sempre foi assim.

No princípio, havia a Deusa — e somente Ela.

Há quem diga que, desde que o mundo é mundo, o Deus cristão, grafado com “D” maiúsculo, onipotente e onipresente — assim como Zeus, Osíris e demais divindades masculinas —, existia e era cultuado entre seus adoradores, mas não foi bem isto que Merlin descobriu: datando do início do período Neolítico (7000 a.C.), no despertar do desenvolvimento humano, Deus era, sim, mulher.

A Grande Deusa, também conhecida como a Divina Ancestral, era quem nutria o mundo em toda a glória das descobertas no alvorecer dos tempos, momento histórico em que os mistérios do surgimento do dia e da noite, da existência das colheitas e dos demais ciclos de vida e morte começavam a ser desvendados.


Uma figura marcante e muito conhecida quando relembramos as aparições da Deusa na Antiguidade é a estátua da Vênus de Willendorf, localizada na Áustria, datando do Paleolítico Superior (cerca de 25000 a.C.). A imagem da mulher com grandes seios, nádegas e barriga é vista até hoje como um dos símbolos mais marcantes Dela e de Sua relação com a fertilidade celebrada na época, um dos vieses de seu culto.

Segundo Merlin, o surgimento Dela remonta à memória que os habitantes do Neolítico tinham de suas ancestrais mulheres, uma vez que aspectos ligados a estas parentes, como o ato de sonhar com elas após um falecimento, por exemplo, era algo lido como um contato sobrenatural e inexplicável — logo, divino.

Juntando-se isto ao fato de que mulheres são capazes de dar à luz havia, portanto, diversas razões para que elas se tornassem o centro da Antiga Religião, cuja figura principal era a Deusa. E em uma sociedade que cultua uma figura feminina, todas as outras figuras femininas são vistas como sagradas.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2023

A Natureza da Mordida - Carla Madeira.


“O que você não tem mais que te entristece tanto?” É com esta pergunta que Biá, uma psicanalista aposentada, apaixonada por literatura, aborda a jovem jornalista Olívia pela primeira vez ao encontrá-la sentada à mesa de um sebo improvisado. A provocação inesperada, vinda de uma estranha, capaz de ouvir “como quem abraça", desencadeia uma sucessão de encontros, marcados pela intimidade crescente e que aos poucos revelam as histórias das duas mulheres. “Nossa amizade começou assim, enquanto nos afogávamos”, relata Olívia.

Com alternância entre as vozes, a força narrativa objetiva, descritiva e linear de Olívia contrapõe-se às anotações esparsas de Biá, cujos fragmentos de uma memória já falha e pouco confiável conduzem a um ponto de virada na trama que irá revelar ao leitor eventos que marcaram o passado de cada uma, evidenciando o paralelo entre as diferentes formas de abandono sofridas (e perpetradas) pelas duas amigas. Ao conhecer Olívia, o leitor é preparado para compreender Biá e, finalmente, refletir sobre a pergunta: o que faríamos em seu lugar?

Como nos outros romances da autora, as personagens parecem saltar do papel para colocar o leitor diante de questões universais, entre elas a incondicionalidade do amor, a força do desejo, a culpa e o esquecimento, a memória e sua dinâmica inescrutável com o perdão. É também um livro sobre amizade.

Com uma narrativa singular, potente e envolvente, Carla Madeira se reafirma em A natureza da mordida como um dos maiores nomes da literatura nacional contemporânea.

Autora

Carla Madeira nasceu em Belo Horizonte em 1964. Largou um curso de matemática e se formou em jornalismo e publicidade. Foi professora de redação publicitária na Universidade Federal de Minas Gerais e é sócia e diretora de criação da agência de comunicação Lápis Raro. Também pela Editora Record, é autora dos romances Tudo é rio, best-seller que já vendeu mais de 100 mil exemplares, e Véspera.