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domingo, 14 de abril de 2024

Comentando sobre: Uma Família Feliz - Raphael Montes - Livro e filme


Neste livro o mestre do suspense Raphael Montes desbrava as tensões das relações familiares e do mundo de aparências de um condomínio perfeito, em uma trama complexa sobre infância e maternidade.

Eva tem a vida perfeita. Seu marido é um jovem advogado em ascensão. Suas filhas gêmeas são lindas, inteligentes e saudáveis. Seu trabalho, a arte reborn, é um sucesso na internet. À sua volta, tudo está à mão: o Blue Paradise, condomínio fechado de classe média-alta na Barra da Tijuca, oferece todo tipo de serviço para que ela não precise sair do conforto de seu lar. Eva tem a vida perfeita ― até descobrir que está grávida e seu mundo virar de cabeça para baixo.

Conhecido por seus suspenses de tirar o fôlego, com mais de 500 mil exemplares vendidos, Raphael Montes inova ao começar este thriller psicológico pelo último capítulo. Assim, como uma bomba-relógio prestes a detonar, acompanhamos os caminhos surpreendentes e as tensões que levam essa família feliz a um final avassalador.

Filme

O filme chega aos cinemas e leva para a telona o suspense característico do escritor Raphael Montes. Com da premissa que “de perto, ninguém é normal”, o longa-metragem desenvolve uma narrativa assombrosa e perturbadora – até certo ponto.

Eva está grávida e, para quem vê de fora, tem uma vida perfeita ao lado de Vicente e de duas filhas. Os problemas começam a aparecer gradativamente e se acentuam quando, em meio à aparente depressão pós-parto da protagonista, o recém-nascido surge com sinais de agressão pelo corpo.

A tensão está presente desde as primeiras cenas, firmada principalmente na ótima atuação de Grazi Massafera. É pelas expressões da atriz, aflita e assustada mesmo em meio à comemoração do aniversário das filhas, que notamos algo de inquietante no dia a dia supostamente pacato de Eva.

Da direção de arte à trilha sonora, passando pela fotografia e os cenários, tudo ali opera para criar um contexto horripilante em torno da protagonista. Uma boa sacada foi cercá-la de bonecos, pavorosos, confeccionados pela própria personagem, que trabalha criando bebês reborn.

Na trama aparecem questões referentes à maternidade, ao puerpério e ao machismo. O filme também evoca outras temáticas, como o abuso sexual, mas todas elas eclodem na parte final da história, quando o suspense se esvazia e a verdade se revela.

O longa mantém um bom suspense por quase duas horas, mas derrapa no desfecho.

O gênero thriller ainda é raro no cinema brasileiro. Contudo, são cada vez mais explorado ainda com poucos títulos por aqui.

O grande mérito da produção é a capacidade de manter os olhos vidrados da audiência por quase duas horas, sem perder sua atenção em qualquer cena. O dissabor fica mesmo para o desfecho, desenvolvido em cerca de 5 minutos, muito aquém da expectativa gerada e do nível apresentado até ali.

A premissa que o autor pareceu querer desenvolver desde o início – a história original do filme rendeu um livro com o mesmo título, também escrito por ele – precisava de um cuidado maior na adaptação.

Uma Família Feliz leva o suspense ao ápice e dá ao público um leque de possibilidades sobre o mistério que envolve aqueles personagens. O plot twist pode não surpreender o espectador mais atento, e a resolução poderia ser mais criativa.

Elenco:

Grazi Massafera
Reynaldo Gianecchini
Luiza Antunes
Juliana Bim

Assista o trailer:

domingo, 28 de maio de 2023

Comentando Sobre o livro 'Documentos do Afeganistão": A história secreta da guerra - Craig Whitlock


A revolucionária história investigativa sobre como três presidentes sucessivos e seus comandantes militares, enganaram o público ano após ano no que diz respeito a mais longa guerra da história norte-americana, é contada pelo repórter do Washington Post, Craig Whitlock, três vezes finalista do Prêmio Pulitzer.

Diferentemente das guerras do Vietnã e do Iraque, a invasão do Afeganistão pelos Estados Unidos em 2001 teve apoio público quase unânime. No início, os objetivos eram diretos e claros: derrotar a Al-Qaeda e evitar uma repetição do 11 de Setembro. Mesmo assim, logo depois que os Estados Unidos e seus aliados retiraram o Talibã do poder, a missão perdeu o rumo e as autoridades norte-americanas perderam de vista seus objetivos originais.

Distraídos pela Guerra no Iraque, os militares dos EUA se atolaram em um conflito invencível em um país que eles não compreendiam. Mas nenhum presidente queria admitir o fracasso, especialmente em uma guerra que começou como uma causa justa. Em vez disso, os governos Bush, Obama e Trump enviavam mais e mais tropas ao Afeganistão e diziam repetidamente que estavam fazendo progressos, embora soubessem que não havia perspectiva realista de uma vitória absoluta.

O Washington Post processou o governo dos Estados Unidos duas vezes para revelar os documentos que constituem a base de Documentos do Afeganistão. Assim como os Papéis do Pentágono transformaram a compreensão do público sobre o Vietnã, aqui os papéis fornecem revelações surpreendentes de pessoas que influenciaram diretamente a Guerra do Afeganistão, desde líderes na Casa Branca e no Pentágono a soldados e trabalhadores humanitários nas linhas de frente. O presidente George W. Bush não sabia o nome de seu comandante de guerra no Afeganistão ― e não queria arranjar tempo para se encontrar com ele. O secretário de Defesa Donald Rumsfeld admitiu que “não tinha noção de quem eram os bandidos”. Seu sucessor, Robert Gates, disse: “Não sabíamos merda nenhuma sobre a Al-Qaeda.”

Em linguagem simples, eles admitem que as estratégias do governo dos EUA eram uma bagunça, que o projeto de construção da pátria foi um fracasso colossal e que as drogas e a corrupção dominaram seus aliados no governo afegão.

Comentando

As imagens da queda caótica de Cabul para o Talibã em agosto de 2021, podem muito bem enquadrar nossa memória coletiva da guerra de 20 anos no Afeganistão – imagens que deixaram muitos americanos inquietos e envergonhados. "Senti vergonha de ser americano", disse-me recentemente um membro da família sobre a retirada dos EUA.


Isso é compreensível, já que muitos afegãos que ajudaram no esforço de guerra liderado pelos EUA, como tradutores de idiomas, foram essencialmente abandonados.

Embora a tomada da capital afegã pelo Talibã fosse esperada, ela se desenrolou "mais rapidamente do que havíamos previsto", disse o presidente Joe Biden em tom melancólico no dia seguinte à queda de 15 de agosto de 2021.

No entanto, por pior que tenha sido a retirada dos EUA – no que foi um constrangimento muito forte e precoce para o jovem governo de Biden – a verdadeira vergonha foi a própria condução da guerra, um fato esmagadoramente apoiado pelas evidências contundentes do livro de Craig Whitlock, Os Documentos do Afeganistão: uma história secreta da guerra.

Embora publicado conforme os eventos de agosto passado se desenrolaram, o livro merece nossa atenção e gratidão um ano depois. Com base na reportagem de Whitlock que apareceu originalmente no The Washington Post, os ‘Documentos do Afeganistão’ compartilham uma linhagem com os ‘Documentos do Pentágono’, que expuseram duplicidade e engano semelhantes na condução da Guerra do Vietnã.

Assim como os ‘Documentos do Pentágono’, as disputas legais tornaram-se parte da narrativa do que sabemos agora. O Post processou com sucesso o governo dos EUA para obter os documentos nos quais a reportagem se baseia - entrevistas oficiais do governo com "lições aprendidas" com centenas de oficiais militares, diplomatas, trabalhadores humanitários e funcionários do governo afegão.

Em sua introdução, Whitlock disse que o Post argumentou no tribunal que "o público tinha o direito de conhecer as críticas internas do governo à guerra - a verdade nua e crua".

A verdade nua e crua, não surpreendentemente, é condenatória – e os ecos com o Vietnã são impressionantes. As entrevistas, disse Whitlock, "mostraram que muitos altos funcionários dos EUA viam privadamente a guerra como um desastre absoluto, contradizendo um coro de declarações públicas róseas de funcionários da Casa Branca, do Pentágono e do Departamento de Estado, que garantiram aos americanos ano após ano que eles estavam fazendo progresso no Afeganistão”.

Em outras palavras, eles sabiam que o que Whitlock chama de “a falsa narrativa do progresso” era exatamente isso – falso.


É verdade que as forças lideradas pelos americanos conseguiram uma vitória relativamente rápida ao derrotar o Talibã no final de 2001. Mas depois disso, a missão dos EUA no Afeganistão ficou desorganizada, sem ninguém mais certo do que se tratava. "Em uma desconexão chocante, os Estados Unidos e seus aliados não conseguiram concordar se estavam realmente lutando uma guerra no Afeganistão, envolvidos em uma operação de manutenção da paz, liderando uma missão de treinamento ou fazendo outra coisa".

O inimigo era a Al-Qaeda ou o Talibã? Quanto tempo levaria, a longo prazo, para reivindicar a vitória final? A vitória poderia resultar de ajudar a reconstruir o Afeganistão?

O presidente George W. Bush prometeu após a invasão do Afeganistão pelos Estados Unidos após o 11 de setembro que os Estados Unidos não iriam se engajar na reconstrução de um país que havia sido castigado pela guerra por décadas. Mas foi exatamente isso que aconteceu. Permitindo a inflação, os EUA gastaram mais no Afeganistão do que na Europa após a Segunda Guerra Mundial.

No entanto, como escreve Whitlock, “em vez de trazer estabilidade e paz, os Estados Unidos inadvertidamente construíram um governo afegão corrupto e disfuncional que dependia do poder militar dos EUA para sua sobrevivência”.

Se essa é uma verdade central sobre o conflito de 20 anos – que o governo afegão apoiado pelos EUA, como o governo apoiado pelos EUA no Vietnã do Sul, era um aliado irresponsável e corrupto – existem verdades auxiliares.

Uma delas é que as tropas do governo afegão simplesmente não estavam à altura da tarefa de lutar e prevalecer sobre uma insurgência comprometida. A maioria se alistou no exército para receber um salário; poucos disseram que estavam dispostos a sacrificar suas vidas pelo governo apoiado pelos EUA. "Muitos receberam seu primeiro pagamento e desapareceram. Outros apareceram, mas sem uniforme, equipamento ou arma, vendendo-os por um dinheiro extra", escreve Whitlock.

Essa não foi a única maneira que os afegãosusaram a invasão para seus próprios propósitos. Em uma anedota reveladora, o dono de uma construtora tinha um irmão que pertencia ao Talibã. "Juntos, eles construíram um negócio próspero: o irmão do Talibã explodiu projetos dos EUA e, em seguida, os americanos involuntários pagaram seu irmão para reconstruí-los", escreve Whitlock.

Esses tipos de fatos eram bem conhecidos das autoridades americanas, mas todas as três administrações que supervisionavam a guerra constantemente cobriam a realidade no terreno. Os governos Bush, Obama e Trump quebraram todas as promessas sobre a guerra, e todos os três mentiram para o público.

A ânsia de Donald Trump durante as negociações dos EUA com o Talibã para reivindicar uma vitória de relações públicas e obter uma eventual foto com o Talibã (o que não aconteceu) parece caracteristicamente sem sentido.

Menos tolo foi o padrão condenatório de mentiras sobre mentiras do governo Obama. Nas entrevistas de "lições aprendidas", oficiais militares "descreveram esforços explícitos e contínuos para enganar deliberadamente o público", escreve Whitlock sobre o governo Obama na Casa Branca para distorcer as estatísticas para fazer parecer que os Estados Unidos estavam ganhando a guerra quando não era o caso".

Embora conclusões como essa sejam o pão com manteiga deste impressionante trabalho de reportagem, o livro oferece uma visão nítida de algumas das lacunas culturais subjacentes que também levaram ao fracasso dos EUA.

Os esforços dos EUA se concentraram em sustentar um governo centralizado. Mas o Afeganistão não tinha experiência ou história real com um governo centralizado bem-sucedido – a identidade étnica e os laços familiares são a base do país. Nas áreas rurais, pouco significava que Hamid Karzai fosse presidente, observa Whitlock. Um oficial do Exército disse que a situação era quase cômica, dizendo que isso o lembrava do esboço de Monty Python em que “o rei vai cavalgando por algum camponês na terra e o rei se aproxima e diz: 'Eu sou o rei', e o camponês se vira e diz: 'O que é um rei?'".

O encontro entre afegãos e americanos sempre foi tenso: tropas americanas camufladas com seus óculos refletivos “poderiam evocar o extraterrestre”, escreve Whitlock. “Para provavelmente 90 a 95 por cento dos afegãos com os quais interagi, poderíamos muito bem ter sido alienígenas”, disse um oficial do exército.

Um programa de erradicação da papoula liderado pelos EUA (para conter o tráfico de drogas) estava destinado ao fracasso. Em uma província, talvez até 90% era a renda derivada da venda de papoula. "Sim, é claro que eles vão pegar em armas e atirar em você. Você acabou de tirar o sustento deles. Eles têm uma família para alimentar", disse um oficial americano cuja citação é uma das várias no livro que mostram que não alguns militares americanos simpatizavam e até respeitavam "o inimigo". Ao mesmo tempo, Whitlock está atento aos sacrifícios das tropas americanas, muitas vezes nomeando atos individuais de coragem e valor.


Mesmo assim, os afegãos muitas vezes se sentiam desprezados pelos americanos. Um governador da província de Kandahar disse que um projeto humanitário de lavagem das mãos liderado pelos EUA era "um insulto ao povo. Aqui as pessoas lavam as mãos cinco vezes por dia para as orações".

Os americanos, por sua vez, lutaram para entender o lugar que invadiram – um país onde as pessoas nas áreas rurais vivem em cabanas de barro e não têm eletricidade ou água encanada. "Você vai lá e pensa que vai ver Moisés andando na rua", disse um oficial do exército.

Não surpreendentemente, o tempo significava coisas diferentes para afegãos e americanos: a maioria dos afegãos era indiferente aos esforços dos americanos para controlar o tempo. "Estamos tentando forçá-los a fazer coisas em nosso tempo que eles não entendem", disse um oficial do exército.

O tempo, é claro, acabou trabalhando a favor do Talibã. Eles eram mestres em esperar pacientemente e se preparar para o momento em que os Estados Unidos simplesmente partiriam – como os russos e os britânicos haviam feito antes. Em um telegrama diplomático confidencial de 2006, um líder do Talibã disse com confiança e razão sobre os EUA: "Vocês têm todos os relógios, mas nós temos todo o tempo".

O tempoacabou, assim como a paciência de ambos os lados. O público americano se cansou dessa "guerra eterna". Enquanto isso, muitos afegãos – talvez a maioria – perderam a paciência com os senhores da guerra apoiados pelos EUA. "A tolerância de Washington ao seu comportamento", escreve Whitlock, "alienou e irritou muitos afegãos que viam os senhores da guerra como corruptos, incorrigíveis e a raiz dos problemas do país".


Embora o Talibã pudesse, é claro, ser "tão cruel e opressivo" - tratando as mulheres como "bens móveis", por exemplo - para muitos afegãos, eles eram simplesmente o menor dos dois males. Um conselheiro civil dos EUA disse com tristeza: "Nós não sabíamos que a população estava emocionada com o Talibã expulsando os senhores da guerra".

Mas eles eram, e dado o curso e os contornos da política dos EUA, a tomada do Talibã em 2021, era provavelmente inevitável. (Embora isso não signifique, um ano depois, que os resultados sejam felizes, especialmente para mulheres e meninas, que vivem uma nova era de opressão).

"Ao permitir que a corrupção apodreça, os Estados Unidos ajudaram a destruir a legitimidade do instável governo afegão que eles lutavam para sustentar", escreve Whitlock. "Com juízes, chefes de polícia e burocratas extorquindo subornos, muitos afegãos azedaram a democracia e recorreram ao Talibã para impor a ordem".

Outros, é claro, nunca se apaixonaram por nenhum lado, mas astutamente optaram por ser pacientes. Um alto funcionário da defesa afegã lembrou-se de ter se reunido com um grupo de líderes tribais afegãos "que não conseguiam ficar em nenhum dos lados".

"A resposta deles foi que não queremos que esse governo corrupto venha e também não queremos o Talibã, então estamos esperando para ver quem vai ganhar".

Em última análise, após uma guerra longa e inútil, o Talibã ganhou o prêmio – mas quase como se os americanos, em um triste exemplo de arrogância, nunca tivessem estado lá.

Bilhares e bilhares de dólares financiando uma guerra que perdeu completamente o objetivo a ser alcançado. Tudo para que no fim restar motivos escusos.

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domingo, 12 de fevereiro de 2023

Entendendo a obra "Estado Elétrico" de Simon Stalenhag.



Numa mistura delirante de On the road e Black Mirror, o artista sueco Simon Stålenhag cria um livro único. Uma viagem visual a um futuro aterrador e sombrio.

Num 1997 imaginado e apocalíptico, uma jovem em fuga e seu robô atravessam os Estados Unidos rumo ao oeste. Ruínas de gigantescos drones de batalha se espalham pela paisagem, junto a toda espécie de lixo descartado de uma sociedade ultra tecnológica e consumista em declínio. À medida que se aproximam da fronteira do país, o mundo parece se desfazer num ritmo cada vez mais alucinante, como se em algum lugar além do horizonte o núcleo oco da civilização finalmente fosse desabar. Em Estado elétrico, Simon Stålenhag volta sua visão atordoante para a América. Com desenhos hiper-realistas e um talento extraordinário para narrar, o artista sueco coloca em cena uma história de amizade e horror, lealdade e suspense, em que uma sensação de constante ameaça paira sobre cada sequência e imagem.

Conhecendo a história

O artista sueco Simon Stålenhag, ganhou projeção internacional quando suas pinturas – que misturam cenários bucólicos e ruínas de máquinas hi-tech – inspiraram a elogiada série ‘Tales from the Loop’, escrita por Nathaniel Halpern e transmitida pela plataforma de streaming Amazon Prime Video. Independentes entre si, cada um dos oito episódios da obra acompanha uma personagem cujo cotidiano campestre é atravessado pela influência da tecnologia numa cidade interiorana que abriga um misterioso complexo industrial de pesquisa científica, em uma versão alternativa dos anos 1990.

Agora Stålenhag, renovador da ficção científica por ambientar suas histórias num tempo mítico, indeterminado, cruzando o mundo real com o digital, publica no Brasil, pela Companhia das Letras, o álbum ’Estado Elétrico’, que reúne uma série de ilustrações encadeadas por um fio narrativo que relata a roadtrip melancólica pelo Oeste dos Estados Unidos da protagonista Michelle com seu robô Skip em busca de seu irmão, há muito tempo separado dela.

Em sua jornada, que também se passa em uma versão retrofuturista dos anos 1990, Michelle se depara com os efeitos de um aparato de realidade virtual que vicia seus usuários e os transforma praticamente em zumbis tecnológicos. Em tempos nos quais a bola da vez no Vale do Silício é o metaverso, a obra de Stålenhag soa como uma fábula cautelar vinda não do futuro, mas de um passado que nunca aconteceu.


Fiel à estética cyberpunk, ‘Estado Elétrico’ imagina os efeitos potencialmente devastadores desse tipo de tecnologias para o tecido social. Nesse passado alternativo, as pessoas passam a se interessar mais pelo mundo digital do que pelo real, o que talvez não seja tão distante do que já esteja em curso desde a ascensão dos smartphones. “Não lido com o futuro, não sou futurista. As pessoas mais fracassaram do que obtiveram sucesso ao imaginar o futuro. Eu sou parte da geração que percebeu que jamais teremos carros voadores”, afirma Simon Stålenhag. Nas palavras do artista, suas ilustrações retratam “sonhos do passado sobre o futuro”.

Stålenhag conta que, durante algum tempo, viajou quase todo ano para os Estados Unidos e passou muito tempo tirando fotografias de paisagens da Califórnia para elaborar as artes presentes em ‘Estado Elétrico’. Sua linguagem formal está ancorada no trabalho digital de artistas conceituais como Ralph McQuiarrie (de Star Wars) e Syd Med (Blade Runner), mas o sueco vai além, unindo conteúdo transgressor e linguagem híbrida, o que explica suas adaptações para diversas mídias (séries de TV e álbuns de música eletrônica). “Sempre quis criar uma história sobre crescer na América”, diz ele.

Pode parecer um contrassenso que um artista cuja obra seja tão marcada por um forte sentimento nostálgico queira abordar uma região tão distante – geográfica, visual e politicamente – de sua terra natal, Estolcomo. No entanto, a escolha por retratar uma personagem norte-americana que atravessa o Vale do Silício desolado diz muito sobre a infância do próprio autor.


“Michelle é uma personagem que já desistiu daquela sociedade. Skip, no entanto, representa, para ela, esperança. Cuidar dele e protegê-lo torna-se seu objetivo, seu propósito. Ela é uma sobrevivente, afinal. É por ele que ela segue em frente”, analisa Stålenhag. A relação de Michelle com Skip é inspirada na relação dele com os próprios irmãos, mais especificamente com sua irmã mais velha, que ofereceu, segundo ele, “proteção emocional” durante a separação de seus pais, quando ele tinha 10 anos.

Para Stålenhag, “o passado é um lugar confortável para se estar”, e a nostalgia presente em suas ilustrações vem da “percepção da própria mortalidade, da passagem do tempo”. Ele explica: “Em uma sociedade consumista, somos constantemente lembrados da passagem do tempo. Isso motiva a nostalgia, a ideia de que algumas coisas eram melhores, mesmo que outras não fossem. Numa cabana isolada não se vê o tempo passar”.

Embora seja um artista visual autodidata, Stålenhag destaca entre suas influências os motivos pastoris e paisagens idílicas dos artistas suecos Bruno Liljefors (1860-1939), Gunnar Brusewitz (1924-2004) e Lars Jonsson (1952-), mesclados à estética cyberpunk que se imiscui em suas obras. Apesar de mobilizar temáticas densas e muitas vezes lúgubres, é comum que as pinturas presentes em ’Estado Elétrico’ e em seus demais trabalhos sejam visualmente pacíficas, com tons aquarelados e harmoniosos. A influência direta ou indireta de quadrinistas como Alex Ross e Wang Ling (mais conhecido pelo pseudônimo Wlop) pode ser notada nos traços quase fotorrealistas de’Estado Elétrico’.

Stålenhag considera que sua obra trata da sensação que a tecnologia exercia sobre ele quando criança em Estocolmo. “Eu não a entendia, mas ela não representava uma ameaça. Sempre fui fascinado por máquinas, essas ferramentas poderosas que podem tanto fazer o bem quanto o mal”. O aspecto mais instigante sobre a tecnologia para ele é sua “absoluta indiferença para com a sociedade humana e seus valores”, afirma ele. “A tecnologia é como um inseto: pode até provocar medo, mas não é maligno em si”.

A obra de Stålenhag reflete, enfim, nostalgia de um passado não vivido. Ele cresceu nos arredores de Estocolmo entre o fim da década de 1980 e o começo dos anos 1990, quando uma bolha imobiliária assolou a economia da Suécia, elevou o desemprego e desencadeou uma quebradeira nos bancos do país. Ao longo de sua infância, era comum para ele caminhar em cenários rurais pincelados com ruínas de fábricas falidas.


Se, em ’Tales from the Loop’, o complexo industrial instalado na cidadezinha interiorana define a vida de toda uma comunidade, em ’Estado Elétrico’, o avô da protagonista, que trabalhava em fábricas de naves, morre por exposição a substâncias tóxicas envolvidas na produção. É frequente nas histórias do artista que os efeitos da tecnologia na sociedade sejam não apenas reais, mas perturbadores e irreversíveis.

É como se a obra de Stålenhag sempre sugerisse que, se por um lado a tecnologia proporciona prosperidade econômica, também traz impactos que fogem ao controle das pessoas que a circundam. É nessa dicotomia que se firma o retrofuturismo nostálgico e levemente distópico de suas paisagens, que expressam tanto quanto ou até mais do que suas narrativas.

sábado, 21 de maio de 2022

Comentando o filme "Klondike - Uma guerra na Ucrânia".

Retratar no cinema uma história que ainda está sendo escrita não costuma criar os melhores filmes. Ao contrário, ela apenas posiciona no centro de “Klondike – A Guerra na Ucrânia” o estopim de um conflito que escalou ao longo de quase dez anos.

Dentro de uma casa, cuja parede da sala é destruída por uma bomba nos primeiros minutos do filme, moram Inka e Tolik. Enquanto eles esperam seu primeiro filho, se veem no meio do conflito entre separatistas pró-russos e o exército ucraniano.

No início, a presença dessa guerra se reflete em alguns incômodos diários, como ter que ceder o carro da família por algumas horas aos separatistas. Porém, quando um desastre aéreo acontece no local, a situação muda.

A diretora baseou o filme no acontecimento de julho de 2014, quando um voo da Malaysia Airlines foi derrubado por separatistas pró-russos na região de Donbass, matando 298 pessoas.

Foram anos de investigação até descobrirem os culpados”, diz a diretora Maryna Er. “E o assunto sumiu da mídia rapidamente, o que foi assustador pra mim, então, eu resolvi contar essa história do meu jeito”.

Mesmo um longa-metragem não documental pode servir como um documento histórico. Para Miguel Chaia, professor da PUC e cientista político, o cinema é uma forma de participação e compreensão da realidade, sendo a Guerra um dos maiores temas do audiovisual, pois afeta a todos; quem produz o filme e quem o assiste.

Qual é o grande acontecimento trágico entendido na sociabilidade, no funcionamento e na organização de uma sociedade? É a guerra. Ela é permanente”, diz.

Os conflitos escalam, mas a essência da guerra não muda. Segundo o professor, “Klondike” não perde força ao retratar uma situação que ainda está em andamento porque o filme é mais uma forma de entrar em contato com o assunto, tornando-o mais elucidativo.

Mesmo que os personagens sejam fictícios, nós estamos vendo uma reincenação da história”.

E Maryna fez questão de mostrá-la, mas refletir sobre ela ao mesmo tempo. Segundo a diretora para fazer um filme anti-guerra é necessário mostrar a guerra de algum jeito. A diretora, porém, deixou de lado a estética clássica de conflitos: explosões a todo momento, jornadas de soldados heroicos, poças de sangue… Ela escolheu o caminho da não-violência e do minimalismo.

Eu quis trazer uma experiência imersiva da guerra através dos movimentos de câmera e da fotografia”, diz, “quando eu não crio um ambiente expositivo, eu deixo a imaginação do espectador fluir, acredito que seja melhor do que mostrar absolutamente tudo”.

Esse filme é minha criação contra a guerra e contra a violência, e eu espero que ressoe com quem assiste”, afirma.

Olhar feminino

A personagem principal do filme é Irka, que resiste, ao máximo, enxergar os horrores da guerra. Como se fosse uma pequena rachadura, Irka insiste ao marido que a parede da sala seja consertada após uma bomba detonar a casa, por exemplo.

Ao ordenhar sua vaca, lhe faz um carinho e pergunta se ela ficou assustada com o barulho. Não entende, ou ignora, o porquê do seu carro estar sendo usado por separatistas. Irka tenta ao máximo se dissociar da realidade, até que, sem escapatória, é diretamente afetada por ela.

Eu vejo muitas “Irkas” por aí, é a clássica mulher ucraniana”, diz a diretora. “São mulheres resistentes, dispostas a proteger sua família e sua própria vida”.

Irka é uma personagem amável, conciliadora, cujo papel principal é mostrar como a guerra, causada por homens, é sempre estúpida.

Maryna compara Irka à própria Ucrânia. Segundo a diretora, um país independente, com a criação da própria cultura, mas cuja história é constantemente interrompida por terceiros.



Ao fim do filme, Maryna dedica-o às mulheres, mas não sem antes mostrar a última cena e a mais emocionante. Na guerra, a destruição também é uma criação.

Fica a reflexão.


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Fonte:CNN.

sábado, 12 de março de 2022

Comentando Sobre o Novo "Batman"


O novo filme nos mostra uma sequência de luta entre Batman e um grupo de capangas com maquiagem de palhaço. É válido questionar se essa gangue está de alguma forma conectada ao Coringa ou se eles são um prelúdio para a ascensão do pior supervilão de Gotham.

De qualquer forma, Batman realmente sai no braço com esses bandidos. Nós até o vemos destruir um taser para se livrar de um inimigo. O olhar no rosto de Pattinson sugere que Bruce está lutando para conter uma fúria assassina. O ator chegou a falar sobre essa raiva em entrevista sugerindo que o Batman está consumindo rapidamente a vida de Bruce.

Mais perturbador, o próprio Bruce diz: "Não ligo pro que acontecer comigo." Ele claramente se perdeu e pode estar tão consumido por sua cruzada de vigilante e sede de vingança que tem um desejo real de morte. Mesmo como Bruce, ele tem a aparência de alguém que oscila no limite da sanidade. O peso que ele se auto impôs está lhe custando muito.

Ao que parece Bruce/batman, não planeja viver muito segundo a cena que mostras as inúmeras cicatrizes pelo corpo. Até Alfred parece genuinamente preocupado com o caminho que Mestre Bruce está trilhando.

O morcego, mulher-gata e pinguim


Mais nem tudo é dor e sofrimento, tem a origem do romance com Selina/mulher-gata e o preludio dos vilões como charada, pinguim e seus comparsas.

O longa deixa claro um o romance de Batman e Selina , e a química que eles conseguem promover. Além de ser totalmente capaz de se defender da vilania de Gotham City.

Mas há uma cena que possui um tom muito diferente. Nela, Selina parece genuinamente com medo enquanto assiste ao Batman esmagar o cérebro de alguém. Ela parece estar fascinada e repelida por seu novo amigo.

Mas se a cena da Mulher-Gato carregando uma arma for qualquer indicação, ela pode ter uma missão sombria própria. Nos quadrinhos, Selina é frequentemente retratada como a filha ilegítima do chefe do crime Carmine Falcone, que é interpretado por John Turturro neste filme. Ela poderia ter uma rixa com a máfia?

Vemos várias novas imagens do Pinguim desta vez, incluindo algumas que parecem ser ambientadas em sua base de operações, o Iceberg Lounge. O chefe do crime está em alta, mas ele é poderoso o suficiente para bater de frente com o Cavaleiro das Trevas?

Você também poderá gostar de: Comentando sobre o filme "Morte no Nilo".

Fonte: IGN.

sábado, 12 de fevereiro de 2022

Comentando Sobre o filme "Morte no Nilo"


O suspense “Morte no Nilo” é baseado no livro homônimo de Agatha Christie. Após adaptar a obra “Assassinato no Expresso do Oriente”, o diretor Kenneth Branagh desenvolve mais uma narrativa baseada na obra da autora e também interpreta uma importante figura na trama: Hercule Poirot, o detetive principal dos romances policiais.

Dessa vez, a história é centrada em Linnet Ridgeway, uma mulher rica, graciosa, encantadora que herdou uma fortuna de seus pais. A trama envolve seu relacionamento com o Simon Doyle, o ex-noivo de sua melhor amiga Jackie De Bellefort, durante a viagem para a Lua de Mel. Com diversos personagens misteriosos e correlacionados, todos se tornam suspeitos após um assassinato no meio da viagem. Apenas uma pessoa é capaz de solucionar o caso: o detetive Hercule Poirot, personagem clássico das obras de Agatha Christie.

A narrativa do filme instiga o público a prestar atenção em cada detalhe pela riqueza de conteúdo e a grande quantidade de personagens diferentes. As primeiras cenas abrem margem para uma contextualização da vida de Poirot e após uma representação de seu passado em preto e branco, o longa segue com a história do novo caso do detetive envolvendo a vida de Linnet.

Para essa representação, a paisagem do Egito é explorada tal como sua cultura, que são o palco das férias do detetive. O que a princípio parece um momento de descanso, se torna uma cena de um local suspeito, misterioso em meio a uma nova cena de investigação. Em contribuição com essa estética, a trilha sonora colabora efetivamente criando um ambiente sedutor e intrigante.

Há uma certa ousadia na tentativa de representar a história de época em paisagens excêntricas, com o ambiente propício aos acontecimentos daquele período. Para isso, em boa parte do filme o jogo de imagens enriquecem esse quadro visual, como os figurinos em cada ocasião e a fotografia da produção. No entanto, essa ousadia se excede em alguns detalhes e o famoso “fundo verde” fica explícito em certos momentos, como a dinâmica dos atores durante a representação das pirâmides.

A atriz Gal Gadot interpreta a principal Linnet e entrega na atuação os detalhes e a estrutura que compõe perfeitamente a personagem. Entretanto, há um grande destaque para Emma Mackey que dá vida a antagonista Jackie. A atriz consegue expressar de maneira surpreendente o drama vivido pela personagem, apenas por suas expressões físicas é possível reconhecer a vingança explícita de Jackie.

Outro destaque em “Morte no Nilo” é a personagem Salome Otterbourne, interpretada por Sophie Okonedo. No filme Salome apresenta características mais interessantes que a personagem do livro. Ela se torna uma mulher forte, instigante e que atrai atenção de todos pelo seu talento. A atuação de Sophie consegue entregar ao público grande admiração por Salome.

Comparação com o livro “Morte no Nilo”

Ao falar de adaptações, há sempre ressalvas no conteúdo. Nem sempre as produções audiovisuais conseguem seguir fielmente as obras literárias. No caso de “Morte no Nilo”, os pequenos detalhes modificados para o longa, não alteram a construção do roteiro e ao terminar a história, os fãs de Agatha Christie ficam satisfeitos com a releitura.


São pequenas circunstâncias que no filme são apresentadas de maneira diferente, mas no geral, o longa conecta bem as cenas com as descrições feitas durante o livro. Há diferenças na estética e descrição dos personagens, que conseguiram se tornar superiores quando adaptadas ao cinema. Como a própria escolha de Gal Gadot no papel principal.

No mais, “Morte no Nilo” é um filme rico em detalhes, com uma estética encantadora e apesar de certa ousadia nas figuras, atende bem a intenção proposta. O longa é uma boa adaptação da obra de Christie e surpreende o telespectador com o enredo desvendado por Hercule Poirot, que se torna o ápice da história, conectando todos os pontos e resolvendo cada brecha solta.



sábado, 1 de janeiro de 2022

Comentando sobre o filme 'Não Olhe para Cima'.


E a Netflix surpreende mais uma vez!
Nessa vez um filme que tinha tudo para ser mais um desperdício de verba e elenco, (e que elenco), mas se provou uma enorme crítica política-social. Leia o texto abaixo:

Em uma era onde a sutileza é dispensada em prol do que é escancarado e dito com todas as letras, Não Olhe para Cima transforma o que seria mundano e pouco inventivo em algo quase genial. O novo trabalho de Adam McKay é uma ode ao fim do mundo como conhecemos – não um básico filme-catástrofe aos moldes de Armageddon ou até Impacto Profundo, mas uma trama regada pela burrice da humanidade.

Burrice talvez seja um termo muito “bruto” para falar das camadas do filme, mas é o mais próximo que temos do que vemos nos noticiários, nas ruas e nas redes sociais. Em frente a uma calamidade capaz de aniquilar toda a espécie, o povo se divide entre quem quer escutar os cientistas e quem vê no negacionismo não apenas um conforto, mas sim a ferramenta política necessária para controlar as massas.

E tudo começa da forma mais simples possível. Nos primeiros minutos, Kate Dibiasky (interpretada por Jennifer Lawrence, excepcional no papel) descobre um meteoro e logo avisa ao seu superior, o Dr. Randall Mindy (que é vivido por Leonardo DiCaprio, em uma performance simples mas eficaz). Os dois começam a fazer as pesquisas e descobrem que o novo corpo celeste está em rota de colisão para a Terra.

O filme só peca no excesso de personagem que no decorrer da trama vai lotando a história e alongando cenas.

Além dos protagonistas, talvez o único que se saia bem é Mark Rylance no papel de Peter Isherwell, um bilionário avoado e excêntrico, que reflete perfeitamente os tiques e surtos da new age de ricaços como Jeff Bezos e Elon Musk. E isso é bem incorporado no filme, exceto quando o próprio roteiro parece esquecer dele durante um bom tempo de duração para apenas resgatá-lo na reta final do longa.


Mas no geral, em meio a risos nervosos e ranger de dentes, o filme consegue divertir através do absurdo de suas situações, até porque vivemos em tempos tão absurdos quanto o que está em tela. Isso gera um sorriso amarelo e um suor frio escorrendo na testa, mas o entretenimento é garantido quando McKay vai até alguns extremos para criticar o status quo da contemporaneidade.

Um exemplo perfeito disso é Riley Bina e DJ Chello (vividos por Ariana Grande e Kid Cudi). Os dois seriam até descartáveis na trama se não estivessem tão afinados em um timing cômico que beira o non-sense – ao mesmo tempo em que isso serve como um breve holofote para a alienação das massas e a necessidade de celebridades e influenciadores que se posicionem, para guiar a manada ao pensamento crítico.

Em seu mais novo filme, Adam McKay prova que consegue ser como era antes – um diretor sincero e direto ao ponto, que não precisa de muito para entreter e divertir, e que também não carrega uma auto-importância descabida. Claro, não é o filme mais genial de todos os tempos, mas a verdade é que o momento atual exige algo muito mais na cara e desconfortável, sem espaço para sutilezas e licenças poéticas.


domingo, 18 de abril de 2021

Comentando Sobre o filme "O Protocolo de Auschwitz"

Senta que lá vem história!

O protocolo de Auschwitz, é um filme com cenas fortes, tenso e triste. Em pensar só conhecemos que uma pequena parte das histórias vividas naquele lugar horrendo. Mais de setenta anos passaram-se, e ainda surge relatos nunca antes visto. Se aquele lugar falasse o mundo choraria, não só os envolvidos e sobreviventes, mas todas as pessoas. Precisamos de histórias como essa para sempre nos lembra que o Holocausto aconteceu sim, foi real. Para um futuro próximo, ou não, impedirmos que as histórias volte a repetir. Precisamos lembrar das milhares de pessoas que pagaram essa conta.

Sinopse:

Baseada na história real de Freddy e Walter, o filme apresenta a árdua saga de dois jovens judeus eslovacos que são deportados para Auschwitz em 1942.

"Em 10 de abril de 1944, após um planejamento meticuloso e com a ajuda e a resiliência de seus internos, eles conseguiram escapar. Enquanto os presos, que eles haviam deixado para trás, corajosamente mantiveram sua posição contra os oficiais nazistas, os dois homens são movidos pela esperança de que suas evidências possam salvar vidas. Emaciados e feridos, eles voltam pelas montanhas para a Eslováquia. Com a ajuda de encontros casuais, eles finalmente conseguem cruzar a fronteira e encontrar a resistência e a Cruz Vermelha. Eles compilam um relatório detalhado sobre o genocídio sistemático no campo. No entanto, com a propaganda nazista e ligações internacionais ainda em vigor, seu relato parece ser muito angustiante para acreditar", diz os chefões da Cruz Vermelha.

Comentando sobre

O Clímax final (depois de todo os horrores), fica nos minutos finais quando vemos esses dois homens (muito bem interpretados por Noel Czuczor e Peter Ondrejicka) praticamente em um processo de convencer pessoas do que está acontecendo em Auschwitz -- edindo, inclusive, para simplesmente bombardear o local e cortar o mal pela raiz. É doloroso, uma coisa impensável, só quem passou anos e anos de torturas iria pensar - suponho.

São personagens buscando desesperadamente por uma saída para viver. Para sobreviver. Não tem como sentir aquela dor, perceber como muitas vidas poderiam ter sido poupadas com um grande líder mundial, ou alguém com poder, por trás.

E a cereja do bolo estão nos créditos, quase como numa cena pós-crédito, quando Bebjak coloca falas de políticos e líderes mundiais com falas que praticamente reproduzem o que era dito naquela época de Auschwitz ou que negam o Holocausto. É um momento forte, quando o filme expõe um ciclo histórico.

O Protocolo de Auschwitz, é um filme que basicamente existe por conta do seu final. Todo ele é pensado, criado e dirigido para aquele baque nos últimos vinte minutos, ganhando ainda mais projeção nos créditos. Como diz uma frase inicial do longa-metragem, "tão importante hoje em dia, precisamos saber mais sobre a nossa História, nosso passado, para não repetir os mesmos erros".



domingo, 28 de março de 2021

Comentando Sobre o Livro "Quarto de Despejo" - Carolina Maria de Jesus


O diário da catadora de papel Carolina Maria de Jesus deu origem à este livro, que relata o cotidiano triste e cruel da vida na favela. A linguagem simples, mas contundente, comove o leitor pelo realismo e pelo olhar sensível na hora de contar o que viu, viveu e sentiu nos anos em que morou na comunidade do Canindé, em São Paulo, com três filhos.
A obra retrata muito bem a vida de quem enfrenta a mesma realidade atualmente. Nada mudou de fato para a grande massa.

Comentando sobre

O livro de Carolina Maria de Jesus narra de modo fiel o cotidiano passado na favela.

Em seu texto, vemos como a autora procura sobreviver como catadora de lixo na metrópole de São Paulo, tentando encontrar naquilo que alguns consideram como sobra o que a mantenha viva.

Os relatos foram escritos entre 15 de julho de 1955 e 1 de janeiro de 1960. As entradas no diário são marcadas com dia, mês e ano e narram aspectos da rotina de Carolina.

Muitas passagens sublinham, por exemplo, a dificuldade de ser mãe solteira nesse contexto de extrema pobreza. Lemos num trecho presente no dia 15 de julho de 1955:

"Aniversário de minha filha Vera Eunice. Eu pretendia comprar um par de sapatos para ela. Mas o custo dos generos alimenticios nos impede a realização dos nossos desejos. Atualmente somos escravos do custo de vida. Eu achei um par de sapatos no lixo, lavei e remendei para ela calçar."

Carolina Maria é mãe de três filhos e dá conta de tudo sozinha.
Para conseguir alimentar e criar a família ela se desdobra trabalhando como catadora de papelão, metal, e como lavadeira. Apesar de todo o esforço, muitas vezes sente que não dá conta.

Nesse contexto de frustração e extrema pobreza, é importante se sublinhar o papel da religiosidade. Diversas vezes, ao longo do livro, a fé aparece como um fator motivador e impulsionador da protagonista.

Carolina encontra na fé força, mas também muitas vezes explicação para situações cotidianas. O caso acima é bastante ilustrativo de como uma dor de cabeça é justificada por algo da ordem do espiritual.

Quarto de Despejo explora os meandros da vida dessa trabalhadora mulher e transmite a dura realidade de Carolina, o constante esforço contínuo para manter a família de pé sem passar maiores necessidades:

"Saí indisposta, com vontade de deitar. Mas, o pobre não repousa. Não tem o previlegio de gosar descanço. Eu estava nervosa interiormente, ia maldizendo a sorte. Catei dois sacos de papel. Depois retornei, catei uns ferros, uma latas, e lenha."

Por ser a única a prover o sustento da família, Carolina trabalha dia e noite para dar conta da criação dos filhos.

Os seus meninos, como ela costuma chamar, passam muito tempo sozinhos em casa e vira e mexe são alvo de críticas da vizinhança que dizem que as crianças "são mal inducadas".

Embora nunca se diga com todas as letras, a autora atribui a reação das vizinhas com os seus filhos pelo fato de ela não ser casada ("sou muito mais feliz que elas que tem marido" diz ela).

Além de trabalhar para conseguir comprar comida, a moradora da favela do Canindé também recebia doações e buscava restos de alimento nas feiras e até no lixo quando era preciso.

Pior do que a fome dela, a fome que mais doía era aquela que assistia nos filhos. E é assim, tentando escapar da fome, da violência, da miséria e da pobreza, que se constrói o relato de Carolina.

Acima de tudo, Quarto de Despejo é uma história de sofrimento e de resiliência, de como uma mulher lida com todas as dificuldades impostas pela vida e ainda consegue transformar em discurso a situação limite vivida.

domingo, 22 de novembro de 2020

Comentando Sobre o Filme 'High Life - Uma nova vida' e 'Por lugares Incríveis'


Olá pensadores, essa semana assisti e analisei a duas obras cinematográficas que traz uma reflexão sobre tabus e crises existenciais. Curiosos?

High Life - Uma nova vida

Há um certo clima de horror inerente em High Life. Logo na primeira cena, em uma conversa de Monte (Robert Pattinson) com sua filha, a câmera de Claire Denis parece gerar uma expectativa. A relação entre os ambientes, a perda de uma ferramenta, os computadores apitando. Tudo nessa relação espacial gera uma correlação meio tensa, nervosa de um universo destroçado. A vista do mesmo personagem a outras pessoas mortas dão ainda mais uma certeza de um medo. Mas o que e qual seria esse medo afinal? Bom, o terror provocado aqui é relacionado a nossa memória, ao passado de forma a gerar um fardo para os personagens.

No presente, o filme acompanha a história de Monte no espaço, mas também lembrando os acontecimentos que o levaram até ali. Sua ida para o espaço se deve a um programa do governo de levar criminosos para fora da Terra, com objetivo de realizarem uma missão. No comando de todos, Dibs (Juliette Binoche) passa o tempo tentando entender e perceber os instintos selvagens de cada um.

Esse horror toma conta de cada relação, cada conversa presente. Existe até um grande nível de estresse pelo lugar causado aos personagens – salientado pelos big closes em mãos, testas, olhos -, passado ao público. Tudo parece estar a um ponto de explodir nesse passado, algo salientado ainda mais por um presente complexo.

Entretanto, ao alcançar o futuro, o peso dessas escolhas e decisões deixam o personagem principal um pouco refém do tempo. Claire Denis foca, inclusive, em um lado mais observativo de Pattinson, ao parecer se questionar do que realmente aconteceu e de seu papel nisso tudo. Existe também um laço de falar sobre paternidade. Todavia, tais fatos acabam sendo mais passáveis adiante por causa de um conceito maior desse tempo sendo um fardo. Os relances anteriores acabam se potencializado no presente.

A tentativa de um debate mais aprofundado filosoficamente traz a história um elemento meio confuso. Quando se deixar tudo acontecer quase em preceitos aleatórios (algo muito presente no segundo ato) ocorre uma maior funcionalidade e naturalidade narrativa. Todavia, principalmente próximo ao fim, há uma tentativa de rememorar ‘Solaris’, de 1972, ao trazer quase uma eventualidade da morte e da loucura. É um caminho quase genérico, acontecido de maneira meio despretensiosa.

Enfim, “High Life” é confuso, (tanto pelo seu enredo complexo, quanto seus acontecimentos não lineares), mas talvez ainda mais intenso que esse sentimento, é a tristeza avassaladora que acompanha a sua odisseia espacial. Este é um estudo sobre aqueles que estão radicalmente sozinhos no mundo e acaba por se transmutar em algo maior e mais complicado, um grito gutural de reprodução em harmonia com um poema épico sobre o mergulho da Humanidade no ominoso desconhecido. Nas palavras da realizadora, é também um filme sobre ternura no espaço, sobre fidelidade, sinceridade e confiança. É um retrato do laço que une o pai e uma filha, o afeto e o amor que sobrevivem e perduram mesmo por entre a brutalidade de que o ser humano é capaz. Pode ser difícil encarar os seus mistérios, mas há glória cinematográfica à espera dos espectadores que aguentarem e foram generosos o suficiente. No final, a Terra está longe, talvez não exista, talvez tudo tenha morrido. No fim, só existe um pai, uma filha, e uma linha amarela. O infinito, o desconhecido abre seus braços negros e abraça-nos no reconforto do seu horror e da sua maravilha. Deixemo-nos ser abraçados.


Por Lugares Incríveis













A história de Jennifer Niven oferece aos jovens histórias palpáveis do que o velho faz de conta. O enredo acompanha Violet e Finch, dois jovens que vivem mundos distintos no colegial, mas cujos caminhos se cruzam em circunstâncias especiais.

Durante uma de suas corridas matinais pela cidade, Finch se depara com Violet em cima de uma ponte. A jovem perdeu a irmã e ainda não aprendeu a lidar com a ausência. Seus amigos não entendem a duração do luto e a própria Violet prefere se afastar até das atividades escolares. A relação entre ela e Finch se fortalece quando eles precisam fazer um trabalho em dupla sobre os "lugares incríveis" de Indiana.

A amizade dos dois cresce, Finch quebra a casca criada por Violet para se proteger apenas por saber ouvir e tentar se colocar no lugar dela. "Por Lugares Incríveis" é um filme sobre empatia, sobre se enxergar nos outros, mas também é um filme sobre saúde mental e doenças sociais.

Enquanto Violet é transparente em sua dor, Finch esconde a sua atrás de citações inteligentes e tiradas espertas. Aos poucos vamos, juntamente com Violet, conhecendo o personagem. O contraste entre eles é curioso e confere profundidade à trama. Algumas descobertas parecem repentinas, mas talvez seja assim que a vida funcione nesses casos; é aquela velha história de que a depressão não tem rosto e pode estar escondida por trás de sorrisos e piadas.

No início o longa é dinâmico e de cara fala para que veio, conforme a trama vai passando a história vai se arrastando até chegar ao final quase previsível. Enquanto Violet vesti uma couraça para o mundo exterior, Finch tem um olhar sofrido como se já tivesse vivido tempo demais.

Jennifer Niven cria ótimos personagens, complexos e encantadores, para mostrar ao mundo que os dramas adolescentes vão além da popularidade na escola. É também um alerta que nunca houve tantos problemas a serem enfrentados pelos jovens como há atualmente.

"Por Lugares Incríveis" é divertido, adorável, mas também é pesado sem se tornar explícito. O filme, assim como o livro, mostra que nunca se sabe pelo que o outro está passando, qual a dor de cada um.

Obs:Tenho que parabenizar a Netflix por estar fazendo filmes cada vez mais com uma pegada psicológica seja com temas clichês ou conceituais.


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domingo, 20 de setembro de 2020

Comentando Sobre o filme "O Dilema das Redes"

Existem apenas duas indústrias que chamam seus clientes de usuários: a de drogas e a de software. Citada no filme "O Dilema das Redes", da Netflix, a sentença do professor da Universidade de Yale Edward Tufte leva o usuário a se reconhecer como personagem, e não mero espectador, do documentário sobre os impasses de uma era de vícios tecnológicos.

Quem acompanha notícias e pesquisas recentes sobre os impasses do mundo atual —polarização, ansiedade, depressão, desconexão com a realidade, fake news— pode imaginar que se trata do remake de algum filme de suspense. O problema é que o final desta história está em aberto. E o que se anuncia não é nada promissor.

Quem diz isso não são apenas os profetas do apocalipse avessos a mudanças, mas os próprios engenheiros deste novo mundo que nos reconfigurou. Fazem parte do elenco, entre outros, Tristan Harris, ex-designer ético do Google; Tim Kendal, ex-presidente do Pinterest; Justin Rosenstein, ex-engenheiro do Facebook; Roger McNamee, investidor em tecnologia, e Jaron Lanier, cientista da computação e autor de "Dez argumentos para você deletar agora suas redes sociais". Eles dividem suas análises sobre a tecnologia com nomes como Arthur C. Clarke e Sófocles, de quem é a frase de abertura do documentário: "Nada grandioso entra nas vidas dos mortais sem uma maldição".

A maldição do século 21 transformou nossa atenção no objeto mais cobiçado das grandes corporações.

Somos, em outras palavras, o que foi o petróleo para o século 20 e a extração de minérios, como ferro e ouro, nos séculos passados.

A ideia básica, como mostra Tristan Harris, hoje um militante contra o vício das redes, é que se você não está pagando pelo produto, você é o produto. Criadas para facilitar conexões e aprofundar laços entre pessoas que curtiam e compartilhavam coisas em comum, essas plataformas logo descobriram a fórmula de fazer dinheiro. Para isso era preciso transformar seres sociáveis em seres manipuláveis. Aqui mora o dilema.

O filme mostra como isso já está acontecendo, mesmo para quem garante só usar as redes para fins recreativos, todos os dias, todas as horas do dia e jura nunca ter se viciado.

Dopamina e algoritmos

A premissa básica é que temos uma necessidade biológica básica de nos conectar com outras pessoas. Desde sempre. Isso afeta diretamente a liberação de dopamina como recompensa. As redes otimizam essa conexão e criam um potencial viciante. Querem que passemos cada vez mais tempo conectados e expostos a mensagens e ofertas de todo tipo. Até aí, tudo pode ser assustador, mas não exatamente uma novidade desde que levamos os aparelhos ao banheiro pela primeira vez. O problema é que, ao longo dos anos, essas grandes empresas reuniram um arsenal de informações sobre nossos comportamentos e passaram a nos conhecer melhor do que qualquer outra pessoa, inclusive nós mesmos.Isso significa não só que eles sabem como está nossos humores e nossa saúde mental em determinada fase da vida, mas o que este estado alterado nos leva a fazer.

Os sistemas são capazes de antecipar tendências. Prever comportamentos por modelos de algoritmos. E vender esta tendência para quem quer saber como nos acessar quando estivermos propensos a compulsões. Podem, com isso, moldar e mudar nossos comportamentos conforme descobrem o que nos engaja e mobiliza.

As redes sociais, como mostra um dos entrevistados, é nossa chupeta quando nos sentimos desconfortáveis, solitários, com medo. Elas atrofiam nossa habilidade de lidar com problemas reais e diversos. A questão é que estaremos sempre desconfortáveis, solitários e com medo diante de padrões de beleza e comportamento que só quem seguimos parecem alcançar. E nos deprimimos e passamos mais tempo nas redes para compensar a frustração.

Tudo já seria preocupante o suficiente se esse ciclo vicioso fosse manipulado apenas para vender batata frita ou calça jeans.

Os manipuladores das redes sabem onde estão as maiores propensões às teorias da conspiração; pior, sabem que estes espaços se tornaram terreno propício para colher engajamento, o santo graal da vida em rede.

A sofisticação das redes, mostra o psicólogo social Jonathan Haidt em certo momento do filme, está relacionada ao aumento gigantesco da depressão, da ansiedade, do suicídio e da internação por autoflagelo entre adolescentes nos EUA. Essa geração, que começou a usar redes sociais durante a pré-adolescência, está mais frágil e se arrisca menos na vida. O índice dos que já saíram em um encontro ou tiveram qualquer interação romântica tem caído rapidamente conforme cresce o uso das plataformas digitais.

A explicação é que nosso cérebro não evoluiu conforme o poder de processamento dessas máquinas desde a sua invenção. Podemos administrar amigos e amores em comunidade. Mas numa comunidade de milhares de seguidores, o bug é iminente.


Como escapar?

Desde o começo de século, a polarização política e a intransigência dentro das bolhas não têm sido

só consequência da vida em rede, mas a sua condição de existência. Se não tivermos a quem odiar, não entregaremos aos donos do negócio o engajamento que eles mais desejam. Por isso clicamos e navegamos como coelhos em busca de cenoura estrategicamente penduradas em anzóis à frente do nosso nariz.

No filme, as referências a distopias recentes, como "Matrix" e "O Show de Truman" estão ali para mostrar que este processo já está em curso e desativá-lo não vai ser nada fácil. Antes é preciso nos reconhecer dentro da matrix.

Ao fim do documentário, os entrevistados dão breves e preciosas dicas de como conseguiram, eles mesmos, diminuir os danos do uso das plataformas que ajudaram a criar. E deixam dicas preciosas, a maior delas é “não deixem seus filhos conectados por muito tempo, pois o cérebro deles ainda está em formação”.

Fonte: Uol.

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